O Ecocardiograma com Doppler é um exame de ultrassom indolor e não invasivo que utiliza ondas sonoras de alta frequência para criar imagens em movimento e em tempo real do coração. É indicado para avaliar a anatomia das câmaras cardíacas, o funcionamento das válvulas e a força de bombeamento do músculo (fração de ejeção), sendo fundamental no diagnóstico de insuficiência cardíaca e sopros.

Quando o médico pega o estetoscópio, ouve o seu peito e diz “Estou escutando um sopro”, é comum o paciente prender a respiração de susto. Afinal, qualquer barulho “diferente” no motor da nossa vida gera alerta. A boa notícia é que a medicina evoluiu a ponto de podermos olhar para dentro do seu peito sem nenhum corte, usando a mesma tecnologia segura utilizada para ver bebês na barriga da mãe.

Como vimos no nosso Guia Completo de Exames do Coração e Check-up, se o eletrocardiograma avalia a “eletricidade”, o Ecocardiograma avalia a “arquitetura” e o “encanamento”. É através dessa tela de ultrassom que a Dra. Thaís Alckmin Rodrigues e outros cardiologistas conseguem medir exatamente os milímetros das paredes do seu coração.

Como o exame é feito? Precisa de jejum?

A simplicidade do Ecocardiograma Transtorácico (o tipo mais comum) é um dos seus maiores benefícios. Ele pode ser feito no consultório, na beira do leito do hospital ou até na emergência.

  • O Procedimento: Você deita em uma maca, geralmente virado de lado (decúbito lateral esquerdo). O médico aplica um gel condutor no seu peito e desliza um aparelho chamado transdutor sobre as costelas. Esse transdutor emite ondas de som imperceptíveis ao ouvido humano que batem no coração e voltam, formando a imagem na tela.
  • A Dor: O exame é totalmente indolor. Pode haver apenas um leve desconforto pela pressão do transdutor contra as costelas para conseguir uma imagem mais nítida.
  • Jejum e Preparo: Para o ecocardiograma convencional, não é necessário jejum. Você pode comer, beber e tomar seus remédios normalmente. Apenas evite ir com roupas difíceis de tirar, pois será necessário expor o peito.

O que é o Doppler? (Aquele barulho que o exame faz)

Durante o exame, o médico aperta um botão e a sala se enche com um som de “sopro” ou “vento” ritmado (whoosh, whoosh). Muitas pessoas acham que estão ouvindo o coração bater, mas na verdade estão ouvindo o Doppler.

O efeito Doppler, aplicado ao ultrassom, permite mapear a direção e a velocidade do sangue fluindo dentro do coração. Na tela, o sangue aparece colorido (vermelho e azul). Isso é vital para saber se o sangue está fluindo na direção correta ou se as válvulas do coração estão “vazando” (refluxo) ou muito “apertadas” (estenose).

Os 4 Tipos de Ecocardiograma

Dependendo do que o cardiologista precisa investigar, ele pode solicitar uma modalidade específica do exame:

Tipo de Exame Como é feito Indicação Principal
Transtorácico (Padrão) Com o gel pelo lado de fora do peito. Check-up geral, diagnóstico inicial de sopros e tamanho do coração.
Transesofágico (ETE) Uma sonda fina é inserida pela garganta (como numa endoscopia). Exige sedação e jejum. Ver atrás do coração (átrios) para procurar pequenos coágulos, infecções nas válvulas ou antes de cirurgias.
Sob Estresse Físico ou Farmacológico O exame é feito com o coração acelerado (pedalando ou por remédios na veia). Diagnosticar isquemia (artérias entupidas) em pacientes que não podem fazer esteira.
Fetal Feito na barriga da gestante (geralmente entre 24 a 28 semanas). Diagnosticar doenças congênitas no coração do bebê antes mesmo dele nascer.

Decifrando o Laudo: Os Termos que Mais Assustam

Ao pegar o envelope do laboratório, é quase impossível não tentar ler o resultado. Abaixo, traduzimos os achados mais comuns para você não perder o sono antes da consulta de retorno:

1. Fração de Ejeção (FE)

É o número mais importante do exame. Ele mede a porcentagem de sangue que o coração consegue bombear para fora a cada batimento. Um coração normal nunca esvazia 100%. A Fração de Ejeção normal fica entre 55% e 70%. Se o laudo vier com FE de 40% ou menos, isso indica Insuficiência Cardíaca (“coração fraco” ou “cansado”), exigindo tratamento imediato.

2. Hipertrofia Ventricular Esquerda (HVE)

Significa que o músculo do seu coração (especialmente o lado esquerdo) está “marombado” e mais grosso que o normal. Isso geralmente não é uma coisa boa no coração. Acontece frequentemente em pacientes que têm Pressão Alta (Hipertensão) há muitos anos e não controlam direito. O coração teve que fazer muita força e o músculo engrossou.

3. Sopro, Refluxo ou Regurgitação Valvar

O coração tem quatro válvulas (portas) que devem abrir para o sangue passar e fechar totalmente para o sangue não voltar. “Regurgitação mínima” ou “Refluxo leve” na válvula Mitral ou Tricúspide é um achado que aparece em quase 80% das pessoas saudáveis. Chamamos de “sopro fisiológico” e não tem gravidade nenhuma. O problema é quando o laudo diz regurgitação Moderada a Importante.

4. Disfunção Diastólica Grau 1 (Alteração de Relaxamento)

É quase um “cabelo branco” do coração. Com o envelhecimento (ou devido à pressão alta), o músculo cardíaco vai perdendo um pouco da sua elasticidade e demora uma fração de segundo a mais para relaxar e se encher de sangue. O Grau 1 é comum a partir dos 50 anos e geralmente não causa nenhum sintoma na vida da pessoa, mas serve de aviso para controlar a pressão arterial e fazer exercícios aeróbicos.

O Ecocardiograma detecta artérias entupidas?

Esta é uma confusão frequente. O ecocardiograma transtorácico (o normal, de repouso) não consegue enxergar diretamente as artérias coronárias (os vasos finos que entopem e causam infarto). Ele enxerga o músculo. Se a artéria estiver entupida a ponto de já ter causado um infarto no passado, o músculo ficará com uma cicatriz e baterá mais fraco naquela região, o que o exame detecta (chamado de “alteração da motilidade segmentar”).

Porém, para ver o entupimento antes do infarto, o exame correto não é o Ecocardiograma de repouso, mas sim o Teste Ergométrico, a Angiotomografia ou o Cateterismo.


Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Grávida pode fazer ecocardiograma?

Sim! Como o exame funciona por ondas sonoras (ultrassom) e não usa nenhum tipo de radiação ionizante, ele é 100% seguro para a gestante e para o bebê em qualquer mês da gestação.

2. Para fazer Ecocardiograma precisa parar de tomar os remédios do coração?

Geralmente não. Para o ecocardiograma de rotina, você deve tomar todas as suas medicações, inclusive as de pressão. A única exceção é se o exame for o “Ecocardiograma sob Estresse”, onde o médico pode pedir para suspender medicações que reduzem os batimentos cardíacos (como Betabloqueadores) 48 horas antes.

3. O ecocardiograma tem contraste?

Na grande maioria das vezes, não. Em casos muito raros e específicos, quando a imagem no paciente está muito ruim (por obesidade extrema ou enfisema pulmonar), o médico pode optar por injetar um “microbolha” (contraste de ultrassom) na veia para melhorar a definição das bordas do coração. Mas isso é a exceção da regra.

4. Por que o médico escuta um sopro no meu peito, mas o ecocardiograma deu normal?

Isso é o que chamamos de “sopro funcional” ou “inocente”. Ele ocorre porque o sangue passa rápido e com muita turbulência por dentro das válvulas do coração, gerando o som que o médico escuta no estetoscópio. O ecocardiograma confirma que a válvula é anatomicamente perfeita e que não há doença. É muito comum em crianças e em grávidas.

5. Meu laudo diz “Derrame Pericárdico Mínimo”. É perigoso?

O coração fica dentro de uma “sacola” chamada pericárdio. Para ele não raspar quando bate, existe naturalmente um pouquinho de líquido ali dentro (cerca de 15 a 50ml). O derrame mínimo é, na maioria das vezes, apenas a visualização desse líquido fisiológico ou o resquício de uma leve inflamação viral que já passou. O cardiologista irá apenas acompanhar.


Referências Bibliográficas

  • Lang RM, et al. Recommendations for Cardiac Chamber Quantification by Echocardiography in Adults: An Update from the American Society of Echocardiography. J Am Soc Echocardiogr. 2015.
  • Diretriz Brasileira de Ecocardiografia. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2004 (com atualizações contínuas do Departamento de Imagem Cardiovascular da SBC).
  • Otto CM. Textbook of Clinical Echocardiography. 6th ed. Elsevier; 2018.
  • Mitchell C, et al. Guidelines for Performing a Comprehensive Transthoracic Echocardiographic Examination in Adults. J Am Soc Echocardiogr. 2019.
  • Nagueh SF, et al. Recommendations for the Evaluation of Left Ventricular Diastolic Function by Echocardiography: An Update. J Am Soc Echocardiogr. 2016.