A Endometriose é uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido endometrial (semelhante ao que reveste o útero) fora da cavidade uterina, afetando ovários, trompas, intestino e bexiga. É indicada para diagnóstico por imagem especializada e tratamento multidisciplinar para controle da dor pélvica e preservação da fertilidade.
Durante anos, muitas mulheres escutam frases como “cólica é normal” ou “quando você casar, passa”. Vamos deixar claro logo no início deste guia da Saúde da Mulher: Dor que te impede de viver não é normal.
A Endometriose afeta cerca de 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva. Ela não é apenas uma “cólica forte”. É uma doença sistêmica, dependente de estrogênio, que funciona como uma “teia de aranha” inflamatória, colando os órgãos pélvicos e gerando um processo de dor crônica que pode ser devastador se não tratado.
Os “5 Ds” da Endometriose: Como identificar?
Embora cada mulher seja única, a doença costuma deixar pistas claras. Chamamos de “Os 5 Ds” da Endometriose:
- Dismenorreia (Cólica Menstrual Intensa): Aquela dor progressiva, que não passa com remédio comum, que te faz faltar ao trabalho ou ir para a emergência tomar medicação na veia.
- Dispareunia (Dor na Relação Sexual): Não é uma dor na entrada, mas uma dor “no fundo”, como se algo estivesse batendo em um lugar machucado lá dentro (profunda).
- Disquezia (Dor ao Evacuar): Dor intensa, pontadas ou sangramento anal, especificamente durante o período menstrual.
- Disúria (Dor ao Urinar): Desconforto na bexiga durante a menstruação (sem ser infecção urinária).
- Dificuldade para Engravidar: A infertilidade pode ser o primeiro e único sinal em mulheres assintomáticas.
Por que ela acontece?
A teoria mais aceita é a da Menstruação Retrógrada. Durante a menstruação, um pouco de sangue reflui pelas trompas e cai dentro da barriga. Em mulheres saudáveis, o sistema imune vai lá e limpa esse sangue.
Na mulher com endometriose, há uma falha imunológica. O corpo não limpa esse tecido. Ele se implanta nos órgãos vizinhos (ovário, intestino) e, a cada mês, quando você menstrua, esses focos “menstruam” também lá dentro, causando inflamação, cicatrizes (aderências) e dor.
| Tipo de Endometriose | Localização | Características |
|---|---|---|
| Superficial (Peritoneal) | Pequenos focos no peritônio (membrana da barriga). | Pode causar muita dor, mesmo sendo “pequena”. |
| Ovariana (Endometrioma) | Cistos de sangue (“chocolate”) dentro do ovário. | Pode afetar a reserva ovariana (fertilidade). |
| Profunda (Infiltrativa) | Invade mais de 5mm nos tecidos (intestino, bexiga, ligamentos). | A forma mais grave e dolorosa. Exige cirurgia complexa. |
Diagnóstico: O Fim da “Cirurgia para Descobrir”
Antigamente, só se descobria endometriose abrindo a barriga. Hoje, isso é erro médico. Temos dois exames de imagem que, quando feitos por radiologistas especialistas (com protocolo específico), mapeiam a doença com precisão:
- Ultrassom Transvaginal com Preparo Intestinal: A paciente toma laxante antes para limpar o intestino, permitindo ver se há lesões coladas na parede do reto ou sigmoide.
- Ressonância Magnética da Pelve: Excelente para ver lesões profundas e mapear a anatomia antes da cirurgia.
Nota: O ultrassom “comum” de rotina NÃO vê endometriose na maioria das vezes. Por isso tantos diagnósticos passam batido.
Tratamento Clínico: “Adormecendo” a Doença
A endometriose se alimenta de estrogênio e menstruação. O primeiro passo do tratamento é, na maioria das vezes, bloquear a menstruação (amenorreia).
- Pílulas de Progestagênio (Dienogeste): Medicações específicas que secam os focos de endometriose.
- DIU Mirena (Levonorgestrel): Excelente opção para quem tem adenomiose (endometriose na parede do útero) associada, pois libera hormônio direto no foco.
- Implantes Hormonais: Bloqueiam a ovulação e a menstruação.
Tratamento Cirúrgico: Quando operar?
A cirurgia (Videolaparoscopia ou Robótica) não é para todas. Ela tem riscos e a doença pode voltar. Indicamos cirurgia quando:
- A dor não melhora com remédios (dor refratária).
- Há risco de perda de órgão (lesão fechando o intestino ou o ureter do rim).
- Infertilidade (em casos selecionados onde a cirurgia melhora a chance de FIV ou gravidez natural).
- Cistos ovarianos muito grandes ou suspeitos.
O objetivo da cirurgia moderna é a Excisão Completa: retirar todos os focos visíveis, não apenas “queimar” por cima.
Endometriose e Fertilidade: O Relógio Corre
A endometriose é responsável por cerca de 50% dos casos de infertilidade feminina. Ela distorce a anatomia das trompas e cria um ambiente inflamatório tóxico para o óvulo e o espermatozoide.
Se você tem endometriose e deseja engravidar no futuro, converse com seu ginecologista sobre Congelamento de Óvulos. A cirurgia de endometriose no ovário pode diminuir a reserva ovariana, por isso é ideal preservar a fertilidade antes de operar.
O Papel da Alimentação (Endo Belly)
Muitas pacientes sofrem com a “Barriga de Endometriose” (Endo Belly) – um inchaço abdominal severo. Uma dieta anti-inflamatória (sem glúten, sem lácteos inflamatórios e rica em ômega-3) ajuda drasticamente a reduzir a dor e o inchaço. O intestino inflamado piora a dor pélvica.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Retirar o útero cura a endometriose?
Nem sempre. A endometriose são focos fora do útero. Se você tirar o útero (histerectomia) mas deixar os focos no intestino, bexiga ou peritônio, a dor pode continuar. A histerectomia é o tratamento definitivo apenas para a Adenomiose (que é a doença na parede do útero).
2. A Endometriose vira câncer?
É extremamente raro (menos de 1% dos casos). A endometriose é uma doença benigna. Porém, alguns tipos específicos de cistos (endometriomas) precisam de vigilância pois têm uma associação leve com tipos raros de câncer de ovário.
3. Engravidar cura a endometriose?
Mito. A gravidez oferece uma “pausa” na doença (porque você fica 9 meses sem menstruar), o que alivia os sintomas. Mas após o parto e o retorno dos ciclos, a doença volta a evoluir. Gravidez não é tratamento.
4. Quem tem endometriose entra na menopausa mais cedo?
A doença em si não antecipa a menopausa, mas as cirurgias repetidas nos ovários para retirar cistos podem diminuir a reserva de óvulos, levando à menopausa precoce cirúrgica.
5. Posso ter endometriose sem sentir dor?
Sim. É a chamada “Endometriose Silenciosa”. Muitas mulheres só descobrem quando tentam engravidar e não conseguem, mesmo tendo ciclos menstruais indolores. A gravidade da dor nem sempre corresponde ao tamanho das lesões.
Referências Bibliográficas
- ESHRE (European Society of Human Reproduction and Embryology). Guideline on the Management of Women with Endometriosis. 2022.
- FEBRASGO. Protocolos Clínicos em Ginecologia: Endometriose. 2021.
- Becker CM, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022.
- Zondervan KT, et al. Endometriosis. Nat Rev Dis Primers. 2018;4:18042.