A Espondilite Anquilosante (EA) é uma doença autoimune inflamatória crônica que afeta primariamente a coluna vertebral e as articulações sacroilíacas (bacia). É indicada para diagnóstico precoce e uso de imunobiológicos para evitar a anquilose (fusão óssea) e a perda irreversível da mobilidade da coluna.

Todo mundo tem dor nas costas em algum momento da vida. Mas existe um tipo de dor que é “traiçoeira”. Ela não aparece porque você carregou peso ou dormiu de mal jeito. Ela aparece devagar, em jovens (geralmente antes dos 45 anos), e tem um comportamento estranho: ela dói mais quando você está parado descansando e melhora quando você se mexe.

Na Reumatologia, chamamos isso de Dor Lombar Inflamatória. A Espondilite Anquilosante é a principal representante de um grupo de doenças chamadas Espondiloartrites. Se não tratada, a inflamação crônica faz com que o corpo tente se “curar” criando osso novo onde não deveria (nos ligamentos), fundindo as vértebras umas nas outras. O resultado final é o que chamamos de “Coluna em Bambu”, onde a coluna perde a flexibilidade e fica rígida.

O Teste dos 5 Sinais: É Hérnia ou Espondilite?

Como diferenciar uma dor mecânica (comum) da dor da Espondilite? Se você responder “SIM” para pelo menos 4 das perguntas abaixo, a chance de ser inflamação é alta:

  1. A dor começou antes dos 40-45 anos?
  2. A dor começou de forma lenta e insidiosa (não foi um trauma agudo)?
  3. A dor melhora quando você faz exercício ou caminha?
  4. A dor não melhora (ou piora) com o repouso absoluto?
  5. Você acorda de madrugada com dor nas costas ou rigidez matinal?

Sintomas: Além da Coluna

Embora a coluna seja o alvo principal, a Espondilite é uma doença sistêmica (do corpo todo). O paciente pode apresentar:

1. Sacroiliíte (Dor no Bumbum)

É a marca registrada da doença. Uma dor profunda na região das nádegas, que muitas vezes alterna os lados (ora dói a direita, ora a esquerda). É causada pela inflamação na articulação sacroilíaca (o encaixe da coluna com a bacia).

2. Uveíte (Olho Vermelho)

Cerca de 30% a 40% dos pacientes terão inflamação no olho (Uveíte Anterior). O olho fica vermelho, dolorido e com fotofobia (sensibilidade à luz). Atenção: Uveíte é uma emergência oftalmológica. Se não tratada rápido, pode afetar a visão.

3. Entesites (Tendinites Rebeldes)

Inflamação no local onde o tendão gruda no osso (entesite). O local mais comum é o Tendão de Aquiles (calcanhar) e a fáscia plantar. Muitos pacientes tratam “esporão” por anos sem saber que é Espondilite.

Diagnóstico: O Gene HLA-B27

Diferente de outras doenças, o exame de sangue simples (VHS e PCR) pode estar normal em alguns pacientes. O diagnóstico depende de:

  • Ressonância Magnética (RM): É o exame mais importante. Ela consegue ver o edema (água) na medula óssea das sacroilíacas anos antes de aparecer no Raio-X comum.
  • HLA-B27 (Exame Genético): É um marcador genético presente em cerca de 90% dos pacientes brancos com Espondilite. Porém, ter o HLA-B27 positivo não é diagnóstico sozinho (muitas pessoas têm o gene e não têm a doença), mas ajuda muito a confirmar a suspeita.
Característica Dor Mecânica (Hérnia/Mau jeito) Dor Inflamatória (Espondilite)
Início Súbito (após esforço/trauma) Lento (meses/anos)
Idade Qualquer idade Jovens (< 45 anos)
Repouso Melhora a dor Piora a dor e a rigidez
Rigidez Matinal Curta (< 30 min) Longa (> 60 min)
Acorda à noite? Geralmente não (ao achar posição, melhora) Sim (dor acorda o paciente)

Tratamento: A Era dos Biológicos

Antigamente, o destino do paciente com Espondilite era a deformidade. Hoje, a remissão é possível e a postura pode ser preservada 100%.

1. Anti-inflamatórios (AINEs)

Diferente de outras dores, na Espondilite o uso contínuo de anti-inflamatórios específicos pode retardar a fusão óssea. É a primeira linha de tratamento.

2. Terapia Imunobiológica

Quando os anti-inflamatórios não bastam, entramos com os biológicos. Os Anti-TNF (Infliximabe, Adalimumabe, Etanercepte) e os Anti-IL-17 (Secuquinumabe) mudaram a história da doença. Eles bloqueiam o sinal químico que manda o osso crescer errado.

3. Exercício Físico: Tão importante quanto o remédio

Na Espondilite, o movimento é vida. O exercício mantém a amplitude das articulações e fortalece a musculatura para segurar a coluna. Natação, Pilates e alongamentos diários são prescrição médica obrigatória.

Estilo de Vida e Cuidados

  • Pare de Fumar AGORA: O cigarro é o pior inimigo da Espondilite. Estudos provam que fumantes têm pior resposta aos remédios e a coluna funde (cola) muito mais rápido do que em não-fumantes.
  • Colchão e Travesseiro: Devem ser firmes para manter a coluna reta durante a noite. Evite travesseiros muito altos que forcem o pescoço para frente.
  • Dieta: Uma alimentação rica em alimentos anti-inflamatórios ajuda a controlar a atividade da doença sistêmica.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Espondilite Anquilosante é hereditária?

Existe uma forte predisposição genética ligada ao gene HLA-B27. Se você tem a doença e o gene, seus filhos têm cerca de 10-20% de chance de desenvolver a doença. Não é uma sentença, mas vale ficar atento se eles tiverem dor nas costas na juventude.

2. A doença causa impotência sexual?

A doença em si não ataca o sistema reprodutor, mas a inflamação crônica, a fadiga e a dor no quadril podem diminuir a libido e dificultar a relação sexual. O tratamento eficaz melhora muito a qualidade de vida sexual.

3. Mulheres têm Espondilite?

Sim. Antigamente achava-se que era doença de homem. Hoje sabemos que muitas mulheres têm, mas nelas a doença costuma ser mais “leve” na coluna e atacar mais o pescoço e as articulações periféricas, sendo muitas vezes diagnosticada erroneamente como Fibromialgia.

4. Quem tem Espondilite pode se aposentar?

Depende da limitação. A doença está no rol de doenças graves que isentam carência no INSS, mas a aposentadoria depende da comprovação de incapacidade laboral permanente. Com os tratamentos novos, a maioria dos pacientes continua trabalhando normalmente.

5. Posso fazer quiropraxia?

Cuidado extremo. Se a coluna já tiver fusão óssea (anquilose) ou osteoporose (comum na doença), manobras bruscas de alta velocidade podem causar fraturas graves. Sempre peça autorização ao seu reumatologista antes de manipular a coluna.


Referências Bibliográficas

  • Ward MM, et al. 2019 Update of the American College of Rheumatology/Spondylitis Association of America/Spondyloarthritis Research and Treatment Network Recommendations for the Treatment of Ankylosing Spondylitis and Nonradiographic Axial Spondyloarthritis. Arthritis Rheumatol. 2019;71(10):1599-1613.
  • van der Linden S, et al. Ankylosing spondylitis. In: Firestein GS, et al, eds. Kelley and Firestein’s Textbook of Rheumatology. 10th ed. Elsevier; 2017.
  • Sieper J, Poddubnyy D. Axial spondyloarthritis. Lancet. 2017;390(10089):73-84.
  • Sociedade Brasileira de Reumatologia. Espondiloartrites: Cartilha para pacientes. 2018.